Com Ser Tão

Espaço para expôr certezas momentâneas como são as coisas no mundo virtual. Espaço para ser, e para o ser. Tão ou mais que nada. Origens. Concertos. De feitos. Há i e Ka i. Alhures i.


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05/02/2009 23:09

Crônicas Apissianas VI – De Ladies e Chicabons

Sempre fui fã dos filmes de Tarantino. Comecei com Pulp Fiction, voltei para ver Cães de Aluguel e depois acompanhei os demais sucessos e insucessos, como Jackie Brown. Depois Tarantino me aparece com Kill Bill, 1 e 2. Numa entrevista certa feita, ele admitiu que, apesar de parecer uma homenagem ao cinema de ação trash de Hong-Kong dos anos 70, Kill Bill é, em sua essência, uma história de vingança, talvez mais exacerbada em relação aos seus outros filmes.
Vingança. Taí um sentimento envergonhado. Temos uma necessidade de esconder esse desejo de vingança, de não alimentar esse que é um dos nossos instintos mais cruéis. É a nossa formação católica, diriam alguns...
Discordo. A Bíblia, principalmente o Velho Testamento, é pródiga em histórias de vingança. Aliás, Jeová, ou Javé, é de uma crueldade ímpar, ou queimar cidades, transformar mulheres em pedra e matar TODOS os primogênitos do Egito são façanhas de piedade? Não é à toa que os Judeus estão até hoje se vingando do Holocausto pra cima dos palestinos. Não entendo porque Israel não tenta invadir a Alemanha, já que é essa é a lógica da Torah...
De fato, essa história de “dar o outro lado do rosto para bater” só vem com o “humanismo” de Jesus, na base do amar ao próximo como a ti mesmo. Daí ter sido crucificado, pois pregar isso no tempo que a Lei do Talião (olho por olho, dente por dente) ainda não tinha sido revogada, só sendo maluco ou filho de Deus.
Mas, apesar de toda essa tentativa de supressão de instintos que nos é imposta pelos códigos morais, sejam eles religiosos ou humanistas, o fato é que a vingança permeia nossas relações sociais, fornecendo farto material para histórias, romances, contos, músicas, enfim, tudo o que narra essa fantástica aventura humana na terra. Só recentemente, de uns 200 anos pra cá, é que a vingança perdeu espaço para as histórias de amor como tema favorito dos escritores e compositores. Mas mesmo estas costumam ser pontuadas pela vingança, de Tróia a Lupiscínio.
Porém, o que interessa aqui, é comentar o outro lado desse sentimento. Se é cruel se vingar, se não é cristão, tudo bem, mas o problema é que a vingança é doce, A sensação é próxima ao sabor de uma barra de chocolate, é que nem chupar um chicabom, para parafrasear mestre Nelson.
Mais ainda, nós torcemos por ela. Voltando às telas, há uma trilogia genial sobre o tema do diretor sul-coreano Park Chan-woo (Sr. Vingança (Sympathy for Mr. Vengeance), Oldboy, Lady Vingança (Sympathy for Lady Vengeance), na qual a vingança não é tratada como um sentimento que envenena a alma, e sim é desnudada de maneira artística, sutil e, na medida do possível, bem humorada. A vingança, meus caros, a vingança liberta.
Pois foi com essa sensação de prazer cacauino que a multidão de cinco mil pessoas serpenteou as ruas do Jardim Cruzeiro ao fim da epopéica vitória tricolor, foi com essa leveza que trabalhadores foram para casa e fizeram amor com suas esposas, que amigos se encontraram nos bares da vida até mais tarde, mesmo não sendo fim de semana. Foi com essa sensação doce que Feira acordou hoje, que as pessoas estavam mais cordiais. Sim, de há muito eu não ouvi tanto bom dia como hoje.
A vingança, senhores, a vingança que aos santos clamamos, nos encontrou, após 13 anos – por coincidência, o tempo que a protagonista de Lady Vingança fica presa, a vingança nos encontrou ontem à noite.
Em seus papiros, Papillon, já me dizia: o Flu venceria nessa quarta-feira. Aquela certeza de super-herói de quadrinhos, saí de casa com ela. Beijei a esposa, dei carona ao amigo, e entrei no estádio altivo. Olhos de rapina. A ameixa do pudim foi a esnobação do rubro negro. Poupar jogadores. Isso se chama humilhação, que é o estimulante mais forte para a vingança.
Pois foi com mais essa espetada nas costas que o Touro entrou ferido na arena. En La Plaza del Toro se viu um Miúra forte, dolorido e com uma garra gremista.
Na verdade, o Vitória perdeu esse jogo domingo passado, quando o Bahia nos ganhou daquela forma. Alguém, óbvio, tinha que pagar. Não se fica impune a um jogo daquele. Como o Vitória vai ganhar domingo. Porque o Bahia perdeu o BAXVI nessa quarta-feira, aqui no Jóia e lá em Pituaçu, ao ganhar desnecessariamente por 6X0.
Mas como não tinha sido avisado disso, o Vitória começou vindo pra cima, e era tudo que o Flu queria. Foi assim nos dois jogos nas Lagoinhas, foi assim nos bonfins do Sertão. O Flu inverte os papéis da tourada. O Touro que provoca o toureiro. Ele que venha, ache que está perto do gol, e quando menos esperar tome a chifrada fatal, aquela que atravessa a costela, que o toureiro fica preso e é arremessado à distância, caindo inerte.
A cada ataque do Vitória, minha certeza de mocinho de filme se espalhava pelas arquibancadas do Jóia, contaminando jovens, velhos e crianças:
- Ih, o Vitória perdeu o gol que o Bahia fez, Jair dessa vez defendeu.
- Esse chute não entrou não vai entrar mais não.
Após o gol de Dudu, suado, tentado, batido, a certeza virou decreto. Todas as aflições que ainda passamos, como aquela cabeçada de Neto Baiano no segundo tempo, só serviam de alimento à profecia. De fato, o Vitória poderia jogar mais treze anos, que não faria um gol naquela defesa do Flu. Pois eram, não os Trezentos, mas os Três de Esparta: Tiago, Lima e Renato Melo, além do Aranha Negra Jair.
Nossas maiores angústias durante todo o segundo tempo não foram, pois, as infrutíferas estocadas desse veloz time rubro negro, mas as torturantes falhas de conclusão de Lewis Amauri Hamilton e, principalmente, do pretenso cometa. O Flu poderia ter liquidado a fatura com uns 3 a 0, não fosse a displicência e a incompetência de sua dupla de atacantes.
- Se é Souza já tinha matado. – vaticina um.
- Oxe, mermo Nino deixava um aí nesses gol todo – decreta outro.
E nessa sabedoria popular, em meio ao show de luz e fumaça dos sinalizadores das organizadas, foi-se assentando a doçura desse sentimento vil, reforçada pela certeza de que torcedor nenhum de Bahia ou Vitória sabe a grandeza desse momento. Pois quanto mais impossível a história, quanto mais rara a ocorrência do evento, mais épica se torna. Sim, uma vitória do Flu sobre Bahia ou Vitória sempre nos dará uma sensação Davinística. Mitológica. Pois ontem, Ápis, o Osíris redivivo, sobrevoou o Jóia. E a natureza feliz se manifestou em comunhão através de uma lua são jorgeana, e o Touro, ferido, pôde mais do que o Leão.

ÊÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá. Ê Touro, quem haverá de pegar?

enviada por coi



02/02/2009 10:34

Crônicas Apissianas V – Os Orixás do Dique

Como trabalhador da Academia, sempre fui meio cético com relação às coisas ditas sobrenaturais. Tudo aquilo que o homem não compreendia era jogado nessa vala comum, desde os raios que queimavam árvores e atemorizavam o homem pré-histórico. Logo cedo apareceram alguns mais espertos que se arvoraram o poder de milagres e a pajelança teve início. No Egito antigo, os sacerdotes eram verdadeiras eminências pardas, dando conselhos ou mesmo manipulando os faraós mais fracos de espírito. Daí em diante, passando pelos milagres do Velho Testamento, as proezas dos heróis do Mahabharata indiano, os feitos incríveis de Maomé, Buda, Confúcio, Jesus e demais seres iluminados, a religião reinou soberana durante milênios da história da humanidade, até os ideais positivistas que fundamentaram a ciência moderna se apresentarem como um adversário à altura para explicar o mundo. Claro que não falta quem queira reunir ambas, como o Espiritismo, mas no geral essas duas criações humanas permanecem fundadas em campos opostos. Fé X fatos. Religião X Ciência. Para alguns, uma pode chegar próximo de negar a outra ou, parafraseando o velho alemão Carlos Marques, vir a ser um ópio que inebria os pouco céticos, como George W. Bush e o seu Criacionismo.
Pois eu digo que todas essas expressões necessitam retornar à origem delas. Diz a tal ciência que o homo sapiens nasceu na África. Ora, então não são os primeiros deuses, os deuses da natureza dos africanos, aqueles chegaram até nós através da vergonha castroalvesiana da escravidão?
E qual a terra, do lado de cá do Atlântico Sul, mais acolhedora para essas divindades? A aquela península na entrada da Baía de Todos os Santos.
Sim, meus caros, já dizia Muniz Sodré, esse baiano de São Gonçalo, que o povo se move por símbolos e rituais. Esse ilustre intelectual diz que devemos buscar uma nova lógica antropológica, esquecendo de modelos da civilização ocidental. Devemos, pois seguir uma linha mais próxima da natureza, das divindades africanas, muito mais complexas do que os monoteísmos de plantão: os Orixás.
Pois foram Eles que saíram do Dique do Tororó, ali perto do antigo santuário do tricolor da capital, e sobrevoaram o Jóia nessa tarde de domingo.
Sim amigos, quem foi ao Jóia da Princesa não viu um duelo de futebol. Viu um duelo de forças sobrenaturais. Orixás X Touro Incantado.
Claro que no futebol há o Sobrenatural de Almeida, esse personagem que o mestre Nelson Rodrigues usava para explicar o inexplicável das quatro linhas. Mas mesmo o Sobrenatural, como um raio, dificilmente cai duas vezes no mesmo lugar. Logo, quem salvou o time do Bahia foi uma força maior. Foram eles. Os Orixás do Dique. Foram eles que fizeram o time tricolor da capital resistir àqueles dez minutos iniciais avassaladores do Touro. Foram eles que deram um choque de paralisia na única falha da defesa taurina para que um zagueiro (um zagueiro!) driblasse esse heróico Jair e fizesse o único e miserável gol do match.
Mas principalmente, foram eles que desviaram aquela bola no final do segundo tempo, que explodiu na trave do amigo do Vampeta.
Até aí, tudo bem. Mas veio o segundo tempo. E aquela jogada maravilhosa que começou no passe mágico de Djalminha (ele de novo) que achou Tácio livre na intermediária para acionar o Lewis Hamilton do Flu, ele, Amauri, que arrancou e soltou o petardo. Toda a multidão do estádio (aliás, que beleza ver o Jóia cheio de gente), sabia que aquela bola entraria, tinha que entrar, a jogada foi uma pintura! Mas os Orixás resolveram por o travessão outra vez. Que os deuses do futebol são injustos, todos sabemos, mas os Orixás foram cruéis.
A partir daí, todos no estádio sabiam que estava decretada a vitória do tricolor da capital. O fatalismo se apossou até da Falange, que pareceu impotente ante essas forças do axé.
Pois todo torcedor do Bahia tem obrigação de ir ao Rio Vermelho nesta segunda-feira, 2 de fevereiro. Católico, protestante, judeu, mulçumano, espírita, budista..., todos eles têm uma dívida com Oxum, Oxossi, Ogum, Iansã, Olorum, Exu, mas principalmente com Yemanjá... Foram eles quem salvaram o Bahia dessa derrota. As oferendas têm de ser fartas, pois a dádiva foi grande.
O certo é que Touro continua Incantado. Pois foi ou não foi um encantamento que pôs o nosso zagueiro para tirar aquela bola na linha do gol no final do segundo tempo?
Me fica a dor daquele zero no placar que teima em não sair do lado do nome do Flu. Alguém sugeriu uma caveira de burro enterrada na sapata do placar. Bobagem. O Touro não é tanto esotérico assim. Se esse jogo foi algo incompreensível, quarta-feira tem mais. E há de ser um outro jogo, onde a gente e a natureza feliz, vivam sempre em comunhão. E o Touro ferido possa mais do que o Leão.

ÊÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá. Ê Touro, quem haverá de pegar?

Cristóvão Cordeiro é professor, engenheiro e tricolor taurino.

enviada por coi



29/01/2009 11:33

Crônicas Apissianas IV – Simples assim

Às vezes gastamos muito tempo pensando sobre como resolver um problema. Imaginamos soluções das mais esdrúxulas, dada a complexidade dos fatores envolvidos. Quando eu estudei álgebra na universidade nunca conseguia imaginar a solução, que na maioria das vezes estava na minha cara. E nas festas? Gastávamos uma hora ali, imaginando o gesto exato, como devíamos usá-lo, um certo ar cruel, de quem sabe o quer, tudo preparado para conquistar a menina. E ela: larga tudo e beija logo, pô. Um beijo. Simples assim.
Acho que vem de nossa formação portuguesa. A gente acha difícil aprender inglês, alemão, chinês, francês ou mesmo espanhol (aliás, francês e espanhol não, são de base latina também), mas você já perguntou a um gringo qual a dificuldade dele em aprender português? Sabe o que ele vai te dizer? Vocês não são diretos. José de Alencar, Camões, mesmo Pessoa, para não falar nos parnasianos e barrocos. Machado nem tanto, Machadão tinha viés britânico.
É muita volta para dizer o óbvio. Duvido que Walt Whitman, Joyce ou Wilde tivessem esse tipo de problema. Shakespeare já é um caso à parte. Já Nick Hornby e Bukowski são bons exemplos. Mas o fato é que a redação dos saxões é mais direta. De um ponto a outro não tem muita volta. E é literatura de primeira qualidade. Straight.
O futebol britânico é famoso por ser reto. É aquela correria, marcação, disciplina, base física, bola chuveirada na área e gol. Mas eles mesmos querem mudar e para contrabalançar, estão importando craques com o dinheiro dos russos e árabes. Robinho, Ronaldo português, só não levaram Kaká porque ele pensa. Às vezes tenho medo de que todos os nossos jovens vão para os Manchesters, Liverpools e Chelseas da vida. Preferia que fossem pra Abbey Road. Uns moleques, tem até uns gêmeos que saíram direto da base do Fluminense do Rio que tão matando a pau por lá. Mas quem mais se encaixa nesse lugar frio é Felipão, com sua disciplina tática.
Os sábios comentaristas de rádio, esses seres acima de qualquer discussão, que dirá de qualquer suspeita, chamam a isso tudo de objetividade. Straight.
Outros chamam de fazer o simples. Para eles Dunga foi o maior volante que já existiu, Canavaro é um ícone, Gerrard é Deus.
Estes gurus rejeitam qualquer drible. À menor manifestação de finta, uma chaleira, um banho de cuia, uma trivela, uma pedalada e lá vem o veredicto: firula. Firuleiro. É a pecha que fica marcada na testa de um Robinho, de um Ronaldinho, mesmo de um Dener, se vivo estivesse. Garrincha seria uma aberração. Mas não de um Kaká, considerado eficiente. Cristiano Ronaldo, o nome do momento, é objetivo. Pois eu prefiro o hermano Messi.
Talvez seja isso. Estamos perdendo a irresponsabilidade do baba. Aquela entortada fatal, humilhante. Aliás, ontem no jogo do Feirense, o tal Neto Berola do Itabuna fez uma de deixar o zagueiro no chão. A torcida (?) vibrou como se fosse gol do Flu. E é um moleque.
Moleque. Já se disse que os moleques vêem da várzea, do baba na rua. Ou vinham. Agora vêem das escolinhas, onde o “professor” pede para ele marcar.
Let it be.
O Fluminense tem alguns desses jovens. Tem os estilosos, aqueles das fintas. O próprio Souza gosta de dar umas pedaladas. O problema é que esses jogadores os empresários levam logo para os europeus brilharem os olhos ou para os coreanos abrirem os deles. Mas tem os simples. Até nos nomes. Nada de nomes de cometas ou nomes compostos. Monossílabos ou apelidos simples. Gil. Galego. Que fazem o simples, porque às vezes, o simples é só que temos para fazer. E é o que deve ser feito, como no segundo tempo lá no sertão.
O sertão é simples. Se chove, tem fartura, se não, tem fé. Fé em Padre Cícero, fé em Conselheiro, fé em Lampião. Fé, em Senhor do Bonfim. Tem que ter fé para pegar duas horas e meia de estrada em plena quarta-feira e se embrenhar no sertão. E acreditar que se volta de lá dos grotões com trunfos. Como quando o vaqueiro resgata a rês desgarrada. Não o Touro Incantado, pois este não haverá de se pegar, principalmente numa vereda do caminho pra Juazeiro. O Touro se sente em casa no sertão.
Foi com fé que alguns desses tuaregues-vaqueiros pegaram esse rumo. E não é que essa fé os trouxe de volta?
Simples assim. Porque não o sê-lo? O Fluminense ganhou porque foi reto, simples. Britânico. Ou tem jogada mais britânica do que o chuveiro na área? E o goleiro, sim ele, sempre ele, nosso mais sofrido personagem, erra. E o gol. Solitário. Simples. Um gol. O suficiente. Enough.

ÊÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá. Ê Touro, quem haverá de pegar?
enviada por coi



26/01/2009 21:11

Crônicas Apissianas III – De refugos e pertencimentos.

Acredito que todo mundo já tenha passado por uma sensação de não pertencimento. O que seria isso? Você estar em algum lugar e achar que deveria estar em outro. Você não se sentir ligado ao ambiente em seu entorno. Quando morei fora de Feira de Santana, sempre passei o primeiro ano tentando me situar na nova cidade, absorver aquilo que o ambiente pudesse oferecer para conseguir identidades, passasse a fazer parte de sua história. De fato, com o tempo você acostuma, mas fica sempre a sensação, a certeza de que aquilo ali nunca vai te pertencer por completo.
Navegadores antigos diziam, navegar é preciso, viver não é preciso.
Eram seis da tarde, e a escuna singrava os mares da baía de Todos os Santos emoldurada num pôr-do-dol de cartão postal. Pois tudo isso não mais me comovia. Só havia o transistor. O radinho de pilha, sintonizado entre chiados descrevendo as maravilhas de Pituaçu ou a heróica vitória do time homônimo sobre o homônimo. De repente, o veredicto: Flu 0X2. Não seria verdade. Claro, o Touro tinha vencido por 4X1 e era líder. Por que diacho divulgar uma mentira dessas? Que imprensa irresponsável! Sol posto a bela Salvador se aproximando e se enfeitando em luzes. Olhar meio vago. Vago me reflito.
É pior o não saber? O não pertencer a essa derrota? Como imaginar o que aconteceu? Como ter um pesadelo sobre algo que não nos pertence?
Pois se os fatos dizem que o Flu não é líder, danem-se os fatos. Essa derrota não me pertence. Eu não estava lá.
Mas o pior de tudo não é isso. É agüentar os profetas do apocalipse, com aquela frase clichê: eu já sabia, o Fluminense é sempre assim, ganha fora e na frente da torcida treme.
Mesmo que o Flu reaja, ganhe de Bahia e Vitória aqui dentro, eles ainda hão de desdenhar: ganhou porque foi no Jóia, quando for em Salvador vai tomar pau.
Esses arautos do fim do mundo deveriam ficar mesmo em casa e não ali atrás do banco. Não sabem eles que Touros refugam? Ou então que há dias que mesmo o melhor toureiro não consegue atiçar o animal.
Mas de nada adiantaria pregar aos infiéis.
Também não foi fatalidade. Diria mestre Nelson que a fatalidade já não explica mais as patifarias de folhetim. Nem mesmo as de novela das oito. Por isso mesmo, esse revés não pode ser aceito passivamente.
Pois alguma coisa há de ser feita. Alguém há de responder a altura. O Touro não pode ser um mocho qualquer. Tem que ser um Nelore, Indubrasil, Hereford. Miúra.
Nazareno tem que instigar o orgulho de cada um dos jogadores. Provocar a ira santa que levou os cruzados à palestina e os mouros ao World Trade Center.
Pois eu prefiro acreditar no místico. Que o Touro há de correr pelas veredas de Senhor do Bonfim e voltar de lá na ponta dos cascos, destroçados os pés de pitanga. E retornar à sua arena, para anotar o primeiro gol do Flu no placar. E EU estarei presente. E cá para nós, o gosto há de ser outro, contra o Bahia. Porque o Touro ainda há de ser encantado. E há de ser um Touro saudoso de feridas.
ÊÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá. Ê Touro, quem haverá de pegar?

PS: O mantra ÊÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá, ê Touro, quem haverá de pegar? É um plágio “homenagioso” da música Boi Encantado, do mestre Elomar Figueira de Melo, conquistense, mas, antes disso, menestrel do sertão. A música fala sobre a lenda do Boi Aruá, um boi encantado que não havia vaqueiro que conseguisse pegá-lo. Eu li o livro no primário, a Lenda do Boi Aruá, um conto de Luís Jardim. Mais tarde, Chico Liberato fez o primeiro longa metragem de animação do Nordeste, contando a história (Boi Aruá, 1980), com a música de Elomar na trilha sonora.

PS2: Ápis é o touro sagrado do Egito, representa Osíris reencarnado. Daí o adjetivo apissianas...

enviada por coi



22/01/2009 03:17

Crônicas Apissianas II – Um gosto de fel

Uma das grandes saudades que começam a me afligir após minha entrada nos “enta” (tenho 42) é de quando eu me empolgava com as coisas. Taí uma das maiores virtudes da juventude: a empolgação. Nos cinemas passa o novo filme do Brad Pitt (atenção meninas!) no qual ele nasce velho e, à medida que o tempo vai passando, ele vai ficando jovem. No meio do caminho ele traça a Cate Blanchett. A idéia não é nova, Chico Anísio tinha um conto (sim, aquele mesmo Chico Anísio da TV, é contista bissexto e dos bons) que contava a mesma história, dizendo que Deus tinha feito a gente errado, que a gente tinha que nascer velho e, à medida que nós fossemos ganhando experiência, iríamos ficando mais jovens, até morrermos na inocência de uma criança. É aquilo que Caetano falava, prosa poética!
De fato, meus amigos, já imaginaram vocês – aqueles com mais de trinta, pelo menos - com a cabeça que vocês têm agora, e o corpicho que vocês tinham com 20 anos? Com certeza aquela deusa loira (ou morena, ou mulata, ou negra) do colégio (ou da universidade, ou da missa, ou do culto, ou do show) não iria te dar aquele fora tão fácil como ela fez, aquela megera. Esse e tantos outros pequenos equívocos da nossa vã existência iriam ser sumariamente deletados de nosso histórico amoroso. Imagine o senhor, meu caro amigo dos enta (40, 50, 60 – que, aliás, tá na moda do BBB), imagine o senhor, com toda essa vasta sabedoria que anos de experiências, amores, paixões, desilusões, desenganos e acima de tudo, aprendizado sobre esse labirinto que é a alma feminina, pois bem, imagine só, o senhor, com essa cabeça, com “as manha”, e o corpo do Brad Pitt aos 28 anos? É ou não é para se empolgar? Imaginaram?
Pois então, foi exatamente isso que aconteceu no Carneirão na noite dessa quarta-feira. Que primeiro tempo primoroso! Perfeito. Fazia anos que eu não via o Flu jogar fácil como nesses 45 minutos. Os gols? Ora, os gols foram só um detalhe. Sim, pois quem, como eu, se juntou às hostes vaqueiro-tuaregues e enfrentou BR’s até a cidade das Lagoinhas, tinha na mente a certeza do mocinho do filme. No final, tudo vai dar certo. Era certo que venceríamos, e deu pena, na entrada do estádio, daqueles pobres carcarás enfrentando a fila de entrada, querendo buscar animação depois do chocolate de domingo passado contra o Vitória. Quando viram nossas camisas tricolores não tiveram como não deixar transparecer aquele olhar apavorado da coadjuvante de filme de suspense, sabendo que vai morrer na próxima cena. O manto tricolor virou minha capa de super-herói.
Mas eu dizia que os gols eram detalhes. Sim, porque eles foram saindo sem nos darmos conta. Do nada, o pobre goleiro Carlão (que foi queimado no 2º. Tempo) espirrou uma bola que não teve nem graça para Crio escorar de cabeça e decretar 1X0. E o pênalti foi mais do que óbvio. Pênalti não tem lá tanta surpresa. Vibramos mais com a marcação do que com o gol, que é quase obrigação do cobrador. Se o goleiro pegar é lucro. Harley não perdoou e cravou 2X0. De repente numa bola parada, quase no meio campo, Dudu decreta 3X0. Tudo muito fácil. Empolgação geral. E foi esse nosso grande problema.
Meus caros jovens, saibam que esse é seu maior pecado e sua maior virtude. A energia que vocês, jovens, carregam é fantástica e faz tudo parecer óbvio, simples. Pra essa geração internet, então, imaginar o que é a angústia da espera da carta da namorada, é um prazer que não lhes foi concedido. Sorry. Mas o defeito é acreditar que tudo está ao clique do Google. Tudo é fácil como dois e dois são quatro. Não, senhores! Mas que velho chato sou eu, que acho tudo isso um saco? A vida, nossa implacável professora, vai nos ensinar e ainda mais a vocês, que ousam se empolgar. E foi todo um segundo tempo de lição.
Principal delas: se é para se empolgar, temos que partir para overdose. Amauri e Harley, ao nos negarem a overdose, perdendo meia dúzia de gols feitos, não nos mataram, mas nos deixaram na boca esse gosto amargo de fel, depois do banho de cuia de Robert sobre Jair.
Sabe aquela menina que você beijou, ficou, desfilou na frente dos colegas, mas no fundo foi pra casa com uma irritante sensação de vazio? Pois é. Um silêncio que nem a bateria da Falange, linda, ali do lado, me tirou a sensação de faltar um pedaço.
Desculpem, talvez aquele coroa do BBB esteja certo, fazendo o papel ridículo de tentar pegar as gostosas. Por favor, o perdoem. Ele só está tentando resgatar isso. Essa empolgação juvenil, que perdemos, depois daquela bola na Caçapa aos 49 do 2º. Tempo. Perdoem a cara amarrada. Mas me dêem cá um abraço. Pois os dias serão assim: ÊÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá. Ê Touro, quem haverá de pegar?

PS: O mantra ÊÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá, ê Touro, quem haverá de pegar? É um plágio “homenagioso” da música Boi Encantado, do mestre Elomar Figueira de Melo, conquistense, mas, antes disso, menestrel do sertão. A música fala sobre a lenda do Boi Aruá, um boi encantado que não havia vaqueiro que conseguisse pegá-lo. Eu li o livro no primário, a Lenda do Boi Aruá, um conto de Luís Jardim. Mais tarde, Chico Liberato fez o primeiro longa metragem de animação do Nordeste, contando a história (Boi Aruá, 1980), com a música de Elomar na trilha sonora.

enviada por coi






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